UNIDOS PELO TROCA-TROCA André Forastieri     Renato, amigo meu e aqui da casa, nunca votou na vida.     Quer dizer, votou para heróis de gibi e besteiras do tipo ­ na última eleição, para Tuma no primeiro turno e Maluf no segundo. Lembro seus antigos planos mirabolantes para usar a cédula como papel higiênico (o difícil foi distrair os mesários).     Não é que ele não confie em políticos ­ ele despreza o conceito de política. Tem nojo de qualquer espécie de militância, organização coletiva, debate democrático etc. E, apesar disso tudo, no dia 26 de julho de 2000, Renato se transformou num militante ferrenho, organizando abaixo-assinado, agitando, denunciando, perdendo o sono e quebrando o pau. Virou personagem de jornal ­ "o defensor número um do Napster".     O caso já é famoso e vai entrar para a história. Começa com Shawn Fanning, universitário, bolando um programinha que facilita a internautas de qualquer parte do mundo trocar arquivos, praticamente sem intermediários. Napster hobby virou Napster empresa, a empresa virou uma bandeira, e a indústria fonográfica caiu em cima quando percebeu que seus lucros iam virar poeira. A imprensa fez grande alarde ­ o que será da Economia sem o domínio da lei e dos direitos autorais?     O processo das grandes gravadoras culminou no último dia 26 de julho, com a juíza Marilyn Patel decidindo proibir o funcionamento do Napster. Derrubada posteriormente por um recurso, a decisão foi suficiente para fazer Renato e mais 38 milhões de supostamente apolíticos usuários do Napster pegarem em armas, as armas da rede, para garantir o direito fundamental do século 21 ­ o direito de realizar a promessa da Internet.     Os desdobramentos vão bem além de nerds colecionando raridades do rock em seus PCs. O impacto atinge o planeta todo, conectado ou não. Os ideólogos da Nova Economia batizaram o novo sistema de "Peer to Peer Networking" (ou P2P). Prefiro T-T, "Troca-Troca". Troca entre amigos ­ de cada um conforme seu potencial. Começou com música. Está chegando a filmes, livros, receita de bolo, software, serviços, patentes. Já tem até "religiões" próprias (vide www.techanism.com). Do P2P ao Linux e além, está disseminada a decisão de liquidar com os direitos autorais ­ ou seja, com a propriedade. E não há justiça, Metallica ou OMC que segure.     O recente acordo entre o Napster e um de seus arquiinimigos, a gigante de mídia Bertelsmann, não muda em nada a situação. O cessar-fogo prevê que, em troca de 50 milhões de dólares da multinacional alemã (que podem ser convertidos posteriormente em ações), o Napster vai desenvolver uma maneira de cobrar por seus serviços. Aí, a Bertelsmann (dona também de editoras, revistas, jornais, televisões, portais etc.) retira o processo, convence as outras múltis de fazer a mesma coisa, e está criado o novo formato de geração de lucro para o século 21.     Lindo para eles ­ mas o fato é que, ainda que o Napster fosse enquadrado (o que não é nada garantido), o passarinho já escapou da gaiola. Um, por razões tecnológicas. Programas mais avançados, como o Gnutella, dispensam servidores centrais. Com esse programa instalado, cada PC passa a ser simultaneamente cliente e servidor. Simplesmente não tem ninguém no mundo capaz de parar o Gnutella. E não tem criptografia capaz de resistir à combinação hackers-mercado negro.     Dois, por razões geopolíticas. Ainda que os protestantes do Primeiro Mundo impusessem leis draconianas contra a Economia Troca-Troca, o resto do planeta, onde a pirataria corre solta e não há quem segure, continuaria fazendo a festa. Três e talvez principal: a Geração Digital finalmente tem sua Causa Global.     Quem nasceu depois de 1977 teve de crescer enfrentando dois grandes fatos novos e contraditórios. O aparecimento da Aids reforçou a cultura da restrição, da rejeição ao risco, de conformismo. Gerou ao mesmo tempo uma franqueza inédita sobre sexo, inclusive e principalmente entre crianças e adolescentes, com automático amadurecimento precoce. O pesadelo forçou um desvio da atividade sexual do rala-rala genital para outras diversões, da banheira do Gugu aos chats ­ o que você acha que a moçada fica fazendo nos bate-papo?     A criação da Web prometeu, ao contrário, um futuro de ficção científica em que tudo seria possível e permissível já ou no máximo daqui a pouco. Você lembra quando viu um website pela primeira vez? Melhor, lembra das primeiras reportagens? A Internet era a nova Terra Prometida ­ o lugar da democracia total, sem fronteiras, sem barreiras, que permitiria a toda a humanidade se comunicar, se organizar, evoluir. O espaço da anarquia, da provocação, da subversão, da criação e principalmente do tesão.     Nos últimos anos, os grandes players da velha economia forçaram um formato mais digerível para a Internet ­ o do shopping center global, financiado pelos grandes bancos, onde qualquer esperto com gel no cabelo e acesso à nova tecnologia do capital barato podia virar o novo Bill Gates.     Mas esse mundo acabou. Principalmente porque não foi isso o prometido à geração que cresceu com a Internet. A Causa Global da Geração Digital é realizar a promessa da Internet, que é a promessa da liberdade, e em última instância de liberdade sexual.     E essa é a razão por que um filme chamado Todo Mundo em Pânico foi o grande sucesso inesperado do ano 2000, nos EUA e no mundo afora, levando 2 milhões de jovens aos cinemas do Brasil.     A cultura pop tudo explica. De 1984 ao ano 2000, um homem dominou os pesadelos de crianças e adolescentes do mundo inteiro: o diretor Wes Craven. Em 1984 apresentou ao mundo Freddy Krueger, autoridade repressora do mundo dos sonhos. A regra era clara: não sonhe. Freddy sadicamente vira as fantasias de suas vítimas contra elas mesmas. Ao lado do monstro pop Michael Jackson, virou o grande ícone infantil do período Reagan-Bush.     Em 1996, Craven iniciou a trilogia Pânico, que disparou um novo ciclo de filmes de terror teen. A heroína, frígida, carrega as culpas da mãe. Novidade: não há figura de autoridade nem Freddy Krueger possível. A cada filme muda o personagem que se esconde na mortalha do assassino Ghostface. As vítimas morrem pelas mãos dos próprios colegas adolescentes. Os monstros que carregam a morte somos nós mesmos.     O terceiro e último filme da trilogia foi lançado em fevereiro de 2000. Foi o menos bem-sucedido. Os ventos tinham mudado. A Aids, matando como nunca no Terceiro Mundo analfabeto, finalmente não é mais um dado relevante para esta geração global privilegiada, que aprendeu no primário sobre sexo anal e tem dinheiro para coquetel e AZT, se for o caso.     Em julho de 2000, o grande sucesso-surpresa foi Todo Mundo em Pânico, paródia escrachadaça do terror teen dos anos 90. Todo mundo trepa com todo mundo, bebe, fuma maconha, fala besteira. O herói do time de futebol americano é gay, a gata siliconada tem ataque de peidos e a violência é de desenho animado.     E, no mesmo julho de 2000, em sincronia perfeita, a audiência de Todo Mundo em Pânico tomou a bandeira da Internet da mão dos banqueiros. Em defesa do Troca-Troca, impôs sua primeira derrota aos monstrengos do mundo industrial. Economia o cacete ­ queremos é abundância. É hora de festa e agora a festa é sua, é nossa, é de quem vier e quem quiser ­ na boa e na faixa...